25 de abr de 2011

Sinta




Sinta...
Feche os olhos e sinta
Está em toda parte
Sinta com atenção
Sinta com seu coração

Esta no homem e na mulher
Esta em mim e dentro de você
No barulho da chuva, no chiado do vento
No rugido do leão, na fuga do gato
Na luz da lua, no calor do sol
Na mente, no conhecimento
Esta na maré alta, na maré baixa
Sinta a vibração

É o que está em cima, o que está em baixo
É a lei, a causa e o efeito
É o medo, é a coragem
É a luz, é a escuridão
.
É o amor, é o ódio
É o deus em você, a presença do TODO
Sinta sem demora
É a vida e é agora
Sinta... apenas sinta...

1 de abr de 2011

Ao luar...



Finalmente o sol se foi... A noite chega de mancinho. Aos poucos e bem devagar eu me levanto, começo me alongando desde minhas garras ate a ponta da minha calda. Ah! Como isso é bom! Uma lambida rápida nas patas e uma ajeitada no bigode nunca são de mais. Estou pronto!
Ao descer pelas escadas eu a vejo... Bem no horizonte... Linda, grande e magnífica! A lua surge para me acompanhar, nesta hora se eu fosse um lobo ou até mesmo um cachorro eu uivaria para ela, embora eu ache isso um hábito horrível. Enfim, não sou um pulguento e ela entende.
Bom, vamos ver a programação... Para hoje temos... A sim! O pássaro azul. É hoje!
Devo esperar um pouco e logo Marcel chegará, se bem que eu até poderia ir sozinho, creio que um gato gordo e grande não vai ajudar em nada.
Marcel tem sido uma espécie de amigo. Amigo não! Uma companhia, uma companhia que às vezes é dispensável, mas que às vezes também me distrai quando estou estressado e irritado. Gato de madame, Marcel nunca levou a sério nossas aventuras nas ruas, acostumado e dependente dos seus donos nunca se arrisca de verdade.
Se bem que hoje a missão é light, e acho mesmo que vou sozinho. Só preciso descer três quarteirões e entrar pelo beco, pelos fundos posso subir pela escada de incêndio ate o segundo andar e pronto! Depois é só entrar... Fácil!

Andando pela rua já sinto a agitação da noite começar, olho para o céu e a vejo... Também olhando para mim... Dando-me sorte. Nessa hora já há muitos gatos andando por ai, alguns caçando comida, outros caçando outras coisas, há os que saem pra brincar e os que saem para brigar e também os que só saem para ganhar... Como eu! Alguns são conhecidos, outros aparecem do nada e do nada desaparecem também... Bom, quem se importa? São só gatos de rua... Como eu!
Marcel vive me dizendo que tenho que voltar para uma casa de humanos, nada como ter uma casa, conforto, banho quente e o mais importante... Comida! Sem trabalho e esforço. Pobre Marcel. É como aqueles gatos com alma de rato, definitivamente não nasceu para a coisa. E quem se importa com banho quente? Eu, por certo tempo, ate já morei em um lar de humanos, quando filhote, de um humano na verdade... Bruno. Um adulto frustrado e com crises de existência, certamente não tinha nada a me oferecer, mas a comida era boa, agora tenho que concordar com Marcel! Creio que Bruno, como qualquer outro humano, queria apenas um bicho totalmente submisso, temente, obediente e cheio de suplicas de afeto. Como não fui e nunca serei um gato de atender necessidades doentias de amor de nenhum humano, caí fora! O gato é um ser solitário, e sabe disso, diferente do ser humano que tenta negar a sua natureza. Um gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor, o gato não pede tão pouco implora por amor, e não depende de afeto, no entanto quando sente é capaz de amar muito. Discretamente. Pode ter alma de criança, mas se comporta como um gentleman!

Que bom! O beco encontra-se vazio, nenhum concorrente, me apresso pela escada, primeiro lance... Segundo lance... E... Janela fechada! Como! Pelo vidro enxergo o passarinho na sua gaiola dourada, que por sinal é ridícula, só mesmo uma velha rabugenta e neurótica pra manter um passarinho azul em uma gaiola dourada. Berta é uma viúva idosa e sozinha que vivia com seus animais, em um apartamento minúsculo escuro e mal decorado. Berta já teve muitos animais, alguns morreram e a maioria fugiu, só restaram os pássaros e os peixes. E eu me certifiquei, é claro, de que no momento não tem nenhum cachorro ou gato na casa pra me atrapalhar. A casa eu já conheço, de certa ocasião, em que Bruno me trousse para o aniversario do Bento, um dos gatos que mais tarde Berta enterrou. Lembro-me que foi nessa ocasião também que conheci Fifi, uma gata branca e de olhos verdes, interessante a principio. Mas que passou a me irritar profundamente com tempo... Fifi era da turma de Marcel... Ratos! A última vez que a vi, lembro-me que foi nesse mesmo prédio, alguns andares a cima, foi quando ele me perguntou se um gato tinha mesmo sete vidas. E eu lhe falei para testar, vai que era verdade... E foi o que ela fez. E depois que saltou de lá de cima, nunca mais a vi.

Berta nunca sai de casa a noite, é certo que ela deve estar ai dentro, então é só me fazer de coitado e alguns miaus pra cá... Uns miaus pra lá... E lá vem ela.
Janela aberta, eu já me lanço pra dentro, faço um pouco de manha e cara de fome. A velha cai, e vai buscar a vasilha com uma porção da pior ração pra gatos do mercado.
Enfim já estou perto do meu objeto de desejo, tenho que ser rápido e certeiro pulo na mesa e salto...

Andando por cima do muro, caminhando de volta pra casa, levo na boca o meu troféu. E exibo com prazer para que todas vejam. O pássaro azul, da velha Berta, EU O PEGUEI! Respeito é bom e é muito bem vindo.
Logo no final da caminhada encontro Marcel. Estava contente e eufórico para começar a noite, simplesmente deixo o pássaro, já sem vida, na sua frente, ele faz a cara assustada de sempre, mas gosto de como me olha depois... Eu diria medo, não! Medo não. Reverencia... E respeito!
Enquanto Marcel se banqueteia vou dar um tempo na minha arvore favorita, no meu cantinho especial para as noites de lua cheia.
Ah! Minha doce e linda amada... Sempre me dando sorte... Chegará também o dia em que irei ao seu encontro, e nesse dia... Esse dia... Vai virar lenda.